Sep 242015
 

Popovič (1933 – 1984) pode ser considerado, junto com Holmes e outros, um dos precursores do nascimento da disciplina ciência da tradução. Conhecido também como teórico eslovaco da literatura e da tradução, neste livro segue o filão aberto por Jakobson sobre a concepção semiótica da tradução, seguido mais tarde por Torop com a Tradução Total (2000). Popovič propõe um modelo universal de processo tradutório, considerado em sua acepção interdisciplinar, e não mais como uma área ou subárea da linguística ou da literatura. Fundamento para a moderna ciência da tradução, este livro apresenta as bases para a refundação da disciplina, utilizando uma nova e mais científica terminologia: prototexto e metatexto, por exemplo, no lugar de texto de partida e texto de chegada. Por prototexto deve-se entender o texto original, considerado pelo estudioso eslovaco como modelo primário, que serve como base para as manipulações textuais de segundo grau (ex.: tradução). O metatexto é definido por Popovič como o modelo do prototexto, a modalidade de realização da invariante intertextual entre os dois textos. A relação metatexto-prototexto pode ser definida como relação invariante-variante. O livro, composto pelos sete capítulos nos quais é dividido, contém também glossário, referências bibliográficas, bibliografia e índice analítico. A Introdução é escrita por um dos tradutores do livro, Bruno Osimo, grande conhecedor das teorias desenvolvidas por autores da escola de Tartu. Osimo afirma que a tradução deste livro é “literal, adequada, livre” e para traduzir as palavras russas e eslovacas sempre usou apenas o seu exato “equivalente” (p. IX). Osimo ainda informa que este livro é o “pilar da ciência da tradução”, publicado em 1975, em língua eslovaca, que só teve uma edição em russo, de 1980, e que agora foi vertido para o italiano; ressalta, também, que mereceria uma tradução em outras línguas e sugere o inglês, por ser a língua 184 Resenhas franca do momento (p. XI). Em inglês, temos o Dictionary for the Analysis of Literary Translation (1975-76), a partir de aulas que Popovič lecionou em Alberta (Canadá). Este trabalho de Popovič nos mostra que a tradução é uma disciplina autônoma e pode viver fora das sombras da linguística, da teoria e da crítica literária. Isso é factível se a tradução for estudada a partir de um ponto de vista semiótico e interdisciplinar. Podemos dizer que a base deste livro se encontra no breve ensaio de Jakobson, “Aspectos Linguísticos da Tradução”, de 1959, e mais tarde (20 anos depois) ganha corpo com Torop e a Tradução Total, principalmente na ampliação da questão da tradução metatextual. Além disso, como mostra Osimo ainda na sua Introdução, neste livro o autor mostra que não existe uma divisão entre arte e ciência/teoria nos estudos aqui propostos, pois os dois ramos devem caminhar juntos. Mas é o próprio Popovič a nos dar uma ideia geral do livro quando afirma que “com este livro desejo dar um panorama das questões tradutórias fundamentais do ponto de vista da teoria da comunicação” e responde aos seguintes questionamentos “elementares”: “o que é a tradução, como nasce, de que tipo de texto se trata” (p. XXVII), pois, segundo ele à época, havia uma lacuna de trabalhos teóricos sólidos nesse setor. Ademais, a teoria da tradução proposta por Popovič deve se desenvolver sob a égide da teoria semiótica da comunicação, abrindo-se para o campo interdisciplinar. Nos países eslavos, o método científico é utilizado também nas disciplinas humanísticas, e La scienza della traduzione. Aspetti metodologici considera a análise literária baseada exclusivamente em paradigmas lógicos. É o que caracteriza também o estudo do processo tradutório dentro da tradução semiótica, um conceito de tradução lato sensu, a que Torop (2000) chamará de Tradução Total. Ressalte-se que como processo tradutório se entende qualquer transformação de um “primeiro” texto (prototexto) em um “segundo” texto (metatexto), verbal ou extraverbal. O capítulo 1, acrescentado pelo autor na ocasião da publicação russa, em 1980, resume a situação em que se encontrava a ciência da tradução, e nele o autor sistematiza os grupos de Resenhas 185 pesquisa, dentro dos níveis teó- ricos e de observação prática em que esta ciência estava dividida. Popovič distingue três grupos: o dos “pesquisadores solitários”, criticado por ele já que considera imprescindível, para um estudioso, conhecer a literatura sobre a sua disciplina; o grupo dos centros de pesquisas sobre tradução literária, importantes também pela divulgação de seus trabalhos; o grupo das escolas de pesquisa tradutória. A escola soviética é aqui considerada ocupando o primeiro lugar em nível mundial. O capítulo 2, sobre as questões metodológicas e comparativistas, é dedicado às várias metodologias de pesquisa, à teoria da tradução literária e à ciência da tradução em uma perspectiva interdisciplinar. Apontamos como relevantes a introdução do conceito de Ljudskanov do “princípio da invariante funcional do texto” (p. 120), assim como a formação multidisciplinar do tradutor que, além do talento estilístico, deve conhecer as línguas e seus sistemas (linguística contrastiva) e o significado ideológico (sociocultural) do trabalho tradutório. A tradução como processo comunicativo é o tema do capí- tulo 3. Aqui, temos a contribui- ção mais específica dos estudos de Popovič, em que o processo tradutório é analisado a partir do processo comunicativo. Nesse capítulo é feita uma importante crítica à tradução como gênero, e é enfrentado o conceito da “traduzionalità” [traduzibilidade] da comunicação textual, definido como a contradição própria vs outro no texto, que pode ser subdividido em uma série de oposições (naturalização vs estrangeirização; folclorização vs urbanização etc.). Os papéis do leitor na comunicação da tradução e do redator na sua composição estão presentes ainda no terceiro capítulo, enquanto no capítulo 4 o metatexto é detalhado em uma análise da estrutura a partir das noções de invariante e transformações estilísticas, chegando à estrutura linguística e à tipologia da tradução. O capítulo 5 aborda a questão da comunicação no estilo tradutório. O estilo do texto e a estilística do tradutor são analisados como elementos para a compreensão em nível textual e do discurso, e como são transpostos no metatexto. Considerações centrais quando se fala em tradução literária já que, como Popovič nos lembra, “[a] tradução não é 186 Resenhas simples substituição de palavras em nível linguístico e temático segundo regras gramaticais” (p. 69). As normas estilísticas da cultura receptora e do metatexto estão incluídas nesse estudo. Os capítulos 6, 7 e 8 são dedicados respectivamente aos problemas de semiótica da tradução, aos contextos da tradução e aos desdobramentos práticos da tradução. Entre os problemas de semiótica está o fator intertemporal da tradução, o conceito que expressa a divergência cronológica entre os receptores do prototexto e do metatexto (problemas de diferenças entre tempo e espaço da cultura do metatexto e do prototexto). No 7° capítulo, Popovič se dedica à tradução intracultural, conhecida também como atualização de textos antigos ou de traduções antigas; aos outros textos que estão perto do metatexto; à dimensão textual definida “metacomunicação”, ou seja, a tudo que acontece com o texto na cadeia comunicativa após a sua produção. Ao final do livro, uma lista em ordem alfabética dos termos utilizados e suas definições tem o papel de nortear os leitores dentro da tradutologia. Trata-se da tradução ao italiano do Dictionary for the Analysis of Literary Translation. Para finalizar, podemos dizer que o livro é destinado a tradutores, pesquisadores, docentes de tradução que se dedicam à tradu- ção de maneira geral, mas mais especificamente aos que se interessam por crítica da tradução. Graças à edição italiana, primeira tradução em língua ocidental (embora não franca), temos a oportunidade de conhecer mais a fundo o trabalho deste grande pesquisador e grande comparatista eslovaco, que nos abre uma luz sobre os estudos escritos em línguas eslavas, riquíssimos em contribuição científica sobre tradução, mas muito pouco conhecidos no ocidente por causa – ironicamente em se fa- – ironicamente em se fa ironicamente em se falando de tradução – das barreiras linguísticas

Andréia Guerini Anna Palma UFSC

Popovič, Anton. La scienza della traduzione. Aspetti metodologici. La comunicazione traduttiva. Milano: Hoepli, 2007, 189 p. Tradução de Daniela Laudani e Bruno Osimo.